Hoje participei como comentarista do programa “Antenado”, da Rádio UFSCAR. O convite foi feito para o Intervozes, coletivo do qual eu sou membro, e eu fui destacada para conversar sobre a discriminação na mídia. Lá pelas tantas, o apresentador me perguntou o que eu achava sobre o fato de que o brasileiro, em geral, chega cansado do trabalho e quer ver entretenimento na televisão, quer se divertir. Isto somado ao fato da minha reflexão de ontem sobre a frase-feita de que brasileiro não discute política, me fez pensar em mangas e na escravidão. Explico.
Soube há pouco tempo que a origem da “sabedoria” popular de que não devemos misturar manga com leite na verdade não tem nenhuma verificação científica. A origem disso, antes, é histórica. Foram os senhores de engenho que inventaram a fama da tal indigestão para que os escravos não comessem as fartas mangas maduras das fazendas.
Pois bem, isso me fez pensar no quem mais pode ser considerado como um dito popular mas que na verdade esconde ideologias perigosas e sob a qual vale a gente pensar um pouquinho.
Ontem escrevi sobre como é conveniente para a manutenção das coisas como estão que a gente acredite que política não se discute. Sobre a primeira frase-feita, a de que brasileiro só quer saber de entretenimento, logo não vale a pena se produzir nada um pouco mais pensante também acho bastante perigosa de se acreditar. Primeiro porque qual é o problema de se gostar de entretenimento? O que há de errado em querer se divertir? A questão aqui é o que consideramos diversão? O humor que humilha os homossexuais, que é machista, racista? Percebo que, mesmo na televisão, há vários programas divertidos que informam, que fazem rir, que educam. Quem disse mesmo que pensar é chato?
Outras vezes em que eu percebo a linguagem a serviço da ideologia dominante é quando falamos dos homens. Especialmente as mulheres. Quando dizemos:
– Grosso! Tinha que ser homem.
– Eles não resistem a um rabo de saia.
– Tá tudo errado! Deixa que lavo esta louça.
– Queria que ele abrisse a porta para mim, que fosse mais gentil.
– E ele pagou a conta!
Na verdade o que estamos fazendo, sem mesmo saber, é justificar e reforçar comportamentos masculinos que não nos interessam. Não é natural um homem ser mal-educado ou violento; eles não são animais que não podem evitar o coito no cio; E devem aprender o trabalho doméstico. E nós não somos rosas ou princesas indefesas ou, pior, crianças que não podem se sustentar ou que precisam de mimos mais do que os homens precisam. Nós também somos más e violentas e perversas. Somos humanas.
Por enquanto é isso. Se você lembrar de mais frases feitas, lugares-comum da linguagem, que na verdade escondem ideologias perigosas é só comentar.